No projeto 365, buscamos delinear o exercício de registro da passagem do tempo.
Com colagens, desenhos, pinturas, recortes, inscrições e perfurações, construímos, em justaposição, um calendiário. Criamos esse termo para caracterizar a fusão de calendário com diário, onde narramos nossas questões pessoais, nossas histórias; é um recorte pontual de autobiografias, enquanto pessoas e artistas. Tentamos, enfim, decifrar o enigma do viver, com uma obra a cada dia, nos 365 dias de um ano.
Durante essa experiência artística, o cotidiano nos trouxe uma outra concepção para o tempo preconcebido por horas e calendários já estipulados. Não no sentido de subvertê-lo, mas de colocar em prática uma poética pessoal, frequentemente esquecida por questões outras. E assim que tocada pela primeira obra, tal poética passou a engendrar um paralelo em nossa dimensão existencial.
O compromisso inadiável do fazer diário cria um jogo conceitual. E as reflexões filosóficas contemporâneas ganham sentido no tangenciamento dos três percursos distintos mostrados pelo conjunto.
No desnudamento pleno do fazer destas pequenas obras, o interator pode vivenciá-las como espelhos de sua existência, observando meticulosamente a matéria-prima das imagens recortadas; o tratamento de cor e gráfico recebidos; o contorno perfurado da imagem se metamorfoseando; a exploração espacial das figuras e a transformação das colagens. Nada é aleatório, nada é por nada. Neste percurso, não há exaustão, mas acolhimento em cada detalhe inserido. O movimento circular do tempo é aguçado pela apreensão do todo. A fragmentação sequencial do conjunto das obras que tomam as paredes dessa exposição sugerem a reconfiguração de uma experiência longa enquanto data, mas única enquanto tempo interior ditado pelas necessidades de cada uma de nós.